Dia do Historiador e da Historiadora: memória, conhecimento e os caminhos da profissão
Por Larissa Bezerra – Assessoria de Comunicação da SEDIS/UFRN
O passado não está tão distante quanto parece. Ele aparece nas memórias que carregamos, nas marcas deixadas pelas sociedades, nos documentos preservados e nas escolhas que continuam produzindo efeitos no presente. É a partir desses vestígios que historiadores e historiadoras constroem interpretações sobre diferentes experiências humanas e ajudam a compreender como chegamos até aqui.
Celebrado em 19 de agosto, o Dia Nacional do Historiador foi instituído pela Lei nº 12.130, de 2009, em homenagem ao nascimento de Joaquim Nabuco, historiador, diplomata, jornalista e um dos principais líderes do movimento abolicionista brasileiro. Onze anos depois, a profissão foi regulamentada pela Lei nº 14.038/2020, que estabeleceu requisitos para o exercício profissional.
Mais do que marcar uma data, a ocasião convida a olhar para o trabalho de quem pesquisa, analisa e produz conhecimento sobre as sociedades. Para professores do curso de História, na modalidade a distância, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ser historiador hoje também significa lidar com questões do próprio tempo e com novas formas de circulação de informações sobre o passado.
“O historiador atual é um profissional que precisa se reinventar diante de um mundo que muda com uma velocidade cada vez maior”, afirma José Evangelista Fagundes, professor do Departamento de História do CCHLA/UFRN e docente do curso de História EaD. Para ele, entre os desafios contemporâneos está o combate à disseminação de falsidades e à adulteração de processos históricos, além da necessidade de estabelecer um diálogo com públicos que estão fora da comunidade acadêmica.
Nesse cenário, o conhecimento histórico não se limita à recuperação de acontecimentos. Ele envolve a análise dos vestígios deixados pelas sociedades e a compreensão das circunstâncias em que foram produzidos. “A história não se propõe a produzir um conhecimento inerte, morto”, explica José Evangelista. Segundo o professor, o diálogo com o passado permite compreender as raízes de práticas, instituições e escolhas que fazem parte da vida contemporânea.

Professor José Evangelista Fagundes, docente do Departamento de História do CCHLA e do curso de História EaD/UFRN. (Foto: acervo pessoal)
Memória, escolhas e silenciamentos
Se os vestígios do passado são matéria-prima do trabalho historiográfico, a memória ocupa um lugar importante nesse processo. Ela preserva experiências individuais e coletivas, mas não constitui um registro neutro. As lembranças também podem carregar omissões, disputas e diferentes interesses, o que exige do historiador uma análise crítica das fontes.
Para José Evangelista, cabe ao profissional lidar com essas limitações sem perder de vista o compromisso com a preservação dos registros. “A memória é essencial ao historiador sobretudo pelo fato de manter ao alcance dele vestígios de um passado, seja ele distante, seja ele recente”, explica.
A professora Aliny Dayany Pereira de Medeiros Pranto, do Departamento de Práticas Educacionais da UFRN e docente do curso de História EaD, amplia essa perspectiva ao chamar atenção para aquilo que também pode ficar fora das memórias compartilhadas. Para ela, o trabalho do historiador pode lançar luz sobre “esquecimentos, silenciamentos e/ou marginalizações” e ajudar diferentes pessoas a compreenderem suas experiências individuais em relação a dimensões sociais mais amplas.
Essa relação entre memória e conhecimento histórico também envolve reconhecer que diferentes grupos possuem experiências e formas de interpretar o mundo. Por isso, pensar historicamente significa considerar múltiplas temporalidades e contextos, em vez de tratar acontecimentos e comportamentos como naturais ou isolados.

Professora Aliny Dayany Pereira de Medeiros Pranto, docente do Magistério Superior da UFRN e do curso de História EaD/UFRN. (Foto: acervo pessoal)
Uma profissão para além da sala de aula
A formação em História prepara profissionais para lidar com pesquisa, ensino e diferentes formas de preservação e produção do conhecimento. Embora a docência seja uma das principais áreas de atuação, as possibilidades também alcançam espaços relacionados à memória, ao patrimônio, à cultura, aos acervos e à produção audiovisual.
Professora titular do Departamento de História, docente e ex-coordenadora do curso de História EaD/UFRN, Maria Emilia Monteiro Porto destaca que a graduação oferece uma formação que permite ao historiador atuar em diferentes frentes. Entre elas estão a organização e curadoria de acervos, projetos de patrimônio cultural, centros de memória, editoras, produtoras cinematográficas e iniciativas voltadas à preservação de memórias individuais e coletivas.
A professora Vanessa Spinosa, docente do curso de História EaD e do Departamento de História do CERES/UFRN, também ressalta a necessidade de ampliar a presença desses profissionais. Para ela, historiadores podem atuar em múltiplas vertentes. “É relevante que ocupemos, enquanto cientistas, pesquisadores(as) e docentes de História, diversos espaços sociais”, afirma.
Essa presença ganha novas dimensões com as transformações na maneira como as pessoas acessam e compartilham informações. Vanessa destaca sua atuação na divulgação da ciência histórica nas redes sociais, onde busca contribuir para uma discussão qualificada sobre o passado e disputar narrativas produzidas fora do campo profissional da História.

Professora Maria Emília Monteiro Porto, docente titular do Departamento de História da UFRN e do curso de História EaD/UFRN. (Foto: acervo pessoal)

Professora Vanessa Spinosa, docente do curso de História EaD/UFRN e do Departamento de História do CERES/UFRN. (Foto: acervo pessoal)
Formar para compreender e transformar
Nesse sentido, a formação acadêmica não representa apenas o aprendizado de conteúdos sobre diferentes períodos e sociedades. Ela envolve o desenvolvimento de ferramentas para pesquisar, interpretar fontes, produzir conhecimento e comunicar essas reflexões em diferentes contextos.
Para a professora Aliny, essa formação também possibilita preparar pessoas para refletirem sobre seus próprios lugares e ações no mundo. “O futuro historiador e historiadora tem a possibilidade de formar gerações de pessoas que refletem sobre seus lugares e fazeres no mundo”, afirma.
É essa dimensão social que, para a docente, mantém a importância da profissão. Formar historiadores significa contribuir para a construção de uma sociedade mais atenta às suas próprias experiências, às desigualdades e às questões que atravessam a vida coletiva.
No fim, o significado de ser historiador e historiadora hoje não encontra uma única resposta. Ele passa pelo rigor da pesquisa, pela preservação das memórias, pela análise crítica das fontes e pela capacidade de estabelecer diálogos entre diferentes tempos e experiências. Passa também pelo compromisso de produzir conhecimento capaz de ajudar a sociedade a compreender suas escolhas, reconhecer seus conflitos e imaginar outros caminhos para o futuro.
É nesse movimento entre passado, presente e possibilidades de futuro que a História permanece viva, e que a formação de novos historiadores e historiadoras continua sendo necessária.
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